quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

"Nós"

Ah! queridas classes artísticas... sempre nos brindando com a falsa modéstia. Quatro horas da manhã de um sábado numa insalubre padaria da cidade, uma mesa formada em sua maioria por profissionais da música e a resposta de uma pergunta ingênua vem montada na cavalaria disfarçada no pronome "nós". O que não é, obviamente, um privilégio dos músicos e muito menos de artistas em geral. O "Nós músicos", "Nós advogados", "Nós poetas", etc, essa maneira autoproclamada porta-voz de se referir a sua profissão surge de qualquer coisa, desde um clubinho do bairro ou até, atualmente motivo de orgulho, da opção sexual das pessoas. Mas quando nasce da boca de alguém da "classe artistica", seja de músicos, artistas plasticos, cineastas, atores, escritores, etc, acompanha sempre uma intrigante afetação para se colocar num patamar mais elevado do que o do interlocutor. Mas claro, o "nós" serve apenas pra destilar vaidades genéricas e principalmente para defender-se de possivéis críticas, os elogios são normalmentes absorvidos de forma individual. E até aonde se espera pessoas mais esclarecidas, deixa-se de ser o que é para se transformar inteiramente naquilo que se faz. Nada contra pessoas visceralmentes apaixonadas pelos seus oficíos, desde que não julgue os outros como néscios por não fazerem daquilo o seu caminho, o seu sustento, e se transformar assim num tolo especialista de sua arte. O tal pronome nesses discursos serve para se pretender portador de um conhecimento especial e elevado e excluir ou pelo menos superficializar outros tipos de conhecimento, normalmente o de quem estiver mais próximo. Essa postura de "você não sabe o que sei porque não faz o que faço" além de ser um tanto egocêntrica reduz ela a um monólogo estéril, que cabe bem apenas em palestras e discursos ou nas palavras de um sábio na montanha e não para quem busca apenas uma conversa agradável. Não sei se isso é uma mania e, quero acreditar que se trata de uma minoria que mais fala do que produz.
Sábado, meia hora depois, a padaria, lugar que não se corre o risco de ouvir "Nós padeiros" continua sua indiferença pelos mortais de toda sorte que estacionaram por ali, para uma última dose, uma ultima conversa ou um primeiro café. Depois de ouvir "nós musicos vivemos música 24 por dia" agradeço a minha modorra que me exclui de qualquer possivel "nós", principalmente porque preciso dormir pelo menos oito horas por dia.

5 comentários:

  1. O comentário que eu deixei ontem mas não foi é que a síntese do seu texto se destaca na frase "quem fala mais do que produz " e também se entendi direito, é uma crítica geral aos limites do seres humanos, aos "nós " plural de "nó ", só para fazer um trocadilho com seus "nós " rsrs

    Sílvia

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  2. Noss..aaaa!!!rsrsrs falou bonito, heim, Paulo Zulli!!! Gostei. Ainda bem que produzo mais do que falo!!! Mas infelizmente convivo com pessoas que batem no peito e dizem muitas barbaridadess...com Z!!!! entendeu???
    Um grande Beijo
    Pri

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. O que NÓS lingüístas sabemos é que há línguas que possuem dois tipos de pronome de primeira pessoa do plural: um que inclui o ouvinte e um que o exclui. Há um NÓS (inclusivo) pra dizer "eu, outros e mais você" e um outro (exclusivo) para "eu e outros e você está fora".
    O que você descreve excelentemente bem no texto é o segundo (assim como aquele em que eu iniciei este comentário).

    NÓS (inclusivo) estamos cheios disso!!!
    :)

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